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25 junho, 2018

Torres Vedras - Araraquara V (FIM)


Dia 27 de Maio, pelas 8:00 voltámos à Fazenda do Salto Grande para terminar em nota alta o Encontro Internacional de Desenho de Rua. Uma vez que já tinha desenhado parte do património construído na passada semana, desta feita, eu e o António Bártolo quisemos registar o património  Natural que inclui um rio que passa mesmo no centro do local e que contém uma cascata que dá o nome ao mesmo, Salto Grande. Depois disso foi tempo de descansar porque no dia seguinte esperava-me uma viagem de 10 horas de avião + 3 horas de carro até ao aeroporto. 
Nesse longo intervalo de tempo, foi mais que suficiente para terminar alguns desenhos, revisitar outros anteriores e chegar a conclusão que já não iria voltar a ver as pessoas e os locais que foram a minha casa nos 12 dias que passaram. Se bem que a saudade de casa era bem mais forte, não pude deixar de ter aquela sensação estranha que a vida a que tão bem me acostumei, as pessoas maravilhosas que conheci, dificilmente as iria reencontrar tão cedo. 
  
Aqui, a minha primeira "oficina" em terras de Vera Cruz contou com um participante... Um, algo completamente inédito e que me marcou bastante, pois foi uma aula privada de desenho para o talentoso Marcelo Okama, professor de BD e Manga em várias escolas do Município. Fica aqui a minha demo e alguns apontamentos rápidos do que ia dizendo ao Marcelo. 

Aqui, uma aguarela da Igreja de Santa Cruz, que acabou por ser uma demo a tantos que passavam por mim e com curiosidade me perguntavam o que estava a fazer e assim que abria a boca, me perguntavam "você é de onde"?  Assim que respondia Portugal, muitos manifestavam o seu desejo de rumar para cá e outros nem sabiam onde era. Uma das pessoas que me abordou, foi um reporter da TV cultura Paulista, a quem dei o contacto do responsável do Grupo USk Araraquara, o Joel Venceslau. Três semanas volvidas, deu em entrevista para o programa cultural da tarde. 

Nesse mesmo dia, pela noite, o último workshop em Araraquara patrocinado pelo SESC que foi dado no Shopping Lupo, num cenário nocturno. 

Quando no altifalante anunciavam que o embarque para o AD8750 com destino a Lisboa, estava iminente, foi tempo de fazer o último registo desta viagem, o A330 da Azul que nos voltou a transportar de volta a Portugal. Estes dias passados no Brasil não foram apenas mais uma viagem mas sim uma experiência cultural muito enriquecedora que se não fosse a convite do artista Lauro Monteiro (baptizado de Embaixador desta conexão cultural) nunca teria a oportunidade de experienciar... O meu muito obrigado à Câmara Municipal de Torres Vedras por nos possibilitar esta viagem; à Prefeitura de Araraquara e à cidade em geral e suas gentes que tão bem me receberam, sempre com um sorriso e alegria contagiantes; aos meus companheiros de viagem: André Baptista, António Bártolo, Olga Neves e Cátia Candeias pela camaradagem, troca de conhecimentos e o cimentar de amizades que irão perdurar certamente; ao USk Araraquara, ao Joel e Madu, pela amizade e coragem de divulgar o movimento USk num ambiente que ainda resiste bastante a esta prática; a Casa do Pinhal e ao Novo Hotel Municipal pela arte de bem receber;  à Daniele, Daniel, SESC e à UNIARA pelo apoio sempre presente; e a todos vós que foram acompanhando esta série de posts e que desta forma também viajaram comigo. Muito obrigado a todos! Por todas as razões já mencionadas, adorei toda esta experiência, espero que tenham gostado também. Até uma próxima Araraquara, decerto irá haver oportunidades para um regresso! 

20 junho, 2018

Torres Vedras - Araraquara IV


Após uma semana intensa de workshops de Sol a Sol, desenhei muito pouco mas irei revelar num futuro post alguns dos apontamentos que fui fazendo durante esses dias. Após todo esse cansaço (do bom) chega o esperado Fim de Semana e a  continuação do Encontro de Desenho do USk Araraquara. Sábado de manhã, voltámos a acordar cedo para desta feita rumar à Casa do Pinhal, a fazenda onde o André esteve em residencia artistica durante to da a semana. Apesar de ser Outono a caminho do Inverno, o Sol queimava e 28º é a temperatura que Portugal queria ter tido em Maio... 
A Fazenda é um lugar mágico onde cada recanto merece ser desenhado, sendo que não me vou alongar neste assunto que o André tão bem relatou nos seus posts. Após a sessão de desenhos, eu vou descrever o que não consegui desenhar, o Brunch! Foi sem dúvida um dos melhores que já tomei, dada a qualidade da comida e o fantástico cenário. Não desenhei porque a comida estava óptima e enquanto há comida, não há desenhos ;) 


Depois de voltarmos à cidade, eu, o António e a Cátia (os únicos Portugueses resistentes em Araraquara) aceitámos o convite dos nossos amigos Araraquarenses e fomos até ao Açaizeiro para comer uma taça gigante de Açai com uma vista fantástica para a rua amarelada pelo por do sol. As cores do por-do-sol em Araraquara são como as de Torres Vedras x 10. Os amarelos e as sombras púrpuras são lindas de morrer e não, eu não consegui colocar isso no papel. Como diz o António, se vamos lutar contra a Natureza, perdemos sempre...


Depois fomos até ao espaço Acarajé com Arte para uma sessão de Drink and Draw, onde comemos Acarajé, uma espécie de salgado oriundo da Bahia regadas com uma das melhores cervejas Brasileiras, a Original. O espaço era exterior e sem iluminação, perfeito para desenhos rápidos sem cor, o desenho pelo desenho apenas, enquanto conversávamos e ouvíamos a música ao vivo. 

Para terminar a noite e porque no dia seguinte íamos acordar bem cedo para o Encontro de Desenho, fomos com os nossos amigos para a Casa Bersanetti, o bar muito castiço na mesma rua do Açai. Petiscámos e bebemos à brasileira devidamente instruídos pelos locais, numa divertida saída pela noite de Araraquara, que seria a última antes de rumar a Lisboa...

Continua...

14 junho, 2018

Torres Vedras - Araraquara III

Depois da manhã passada no Assentamento da Bela Vista, era altura de regressar a cidade pelo mesmo caminho cheio de altos e baixos que mais parecia uma ida às Berlengas em dia de tempestade. Ainda bem que não almoçamos antes porque caso contrário, o interior do "ônibus" não teria ficado muito bem de saúde, assim como os seus ocupantes... 
À tarde rumámos ao teatro municipal de Araraquara que estava em processo de restauro e como tal, interditado. No entanto, o seu exterior Neo Brutalista tinha todos os motivos para serem desenhados, de todos os ângulos e mais algum. Dei aqui um mini workshop de como simplificar as formas deste complexo conjunto a fim do nosso cérebro não "fritar" enquanto tentamos organizar o encadeamento do nosso desenho. 

Depois foi tempo de rumar ao Espaço Arte para o primeiro Drink and Draw do Encontro. Um espaço que é um armazém transformado em escola de Música com um ambiente meio Noir- Vintage bem convidativo para o Drink, Talk and Eat... 
 
O final de tarde/noite culminou numa actuação musical que foi uma espécie de Jam session de música tradicional brasileira (da boa, não aquelas "pimbalhadas" de novela barata) num ambiente bem intimista liderado pela Kris Pires na Guitarra e Voz.
 
No dia seguinte começavam os workshops da semana e eu até tive uma 2ª feira bem descansada onde apenas dei uma palestra para os professores locais em conjunto com a minha colega Olga Neves. Um ambiente bem descontraído onde falámos sobre o ensino em Portugal e os problemas que temos ao lidar com os alunos. Diferentes da realidade/escala brasileiras mas ainda assim, todos se mostraram surpreendidos por não serem os únicos a pensar que só ali é que existem problemas e carências na educação. Da parte da tarde, juntámos um pequeno grupo e fomos para a Praça Pedro Toledo desenhar numa divertida sessão liderada pelo António Bártolo que fez uma demo de aguarela para todos nós. Por entre o arvoredo, fios e telhados, a Igreja Matriz eleva-se dominante à medida que o sol descia (bem cedo, as 18h já era noite!) 

A noite fomos para o auditório da UNIARA ( Universidade de Araraquara) onde iria dar início à XXI semana da Arquitectura e do Urbanismo liderada pela Prof. Dra. Sálua Kairuz coordenadora do curso de Arquitectura e Urbanismo (à direita com o microfone). A palestra inicial foi a do André Baptista que na condição de arquitecto da Câmara Municipal de Torres Vedras e coordenador do projecto de recuperação da Encosta de São Vicente, foi falar dos desafios de como levar a cabo um projecto desta envergadura e a importância do desenho à mão como ferramenta de análise e projecto de todo este processo. As imagens de Torres Vedras que iam passando nos slides acentuavam ainda mais as minhas saudades de casa, que estava bem longe há quase 5 dias... 

12 junho, 2018

Torres Vedras - Araraquara II

 ...No dia seguinte bem cedo, apanhámos o "ônibus" até ao Assentamento da Bela Vista. O equivalente em Portugal a uma AUGI (Área Urbana de Génese Ilegal) mas no campo, iniciado pelos trabalhadores sem-terra das grandes culturas locais. É um povoado organizado dentro da sua aparente desorganização espacial e acima de tudo, é um local honesto que não tenta parecer algo que não é. A autenticidade e simplicidade do lugar e das suas gentes é nos presenteada assim que damos os primeiros passos na rua de terra batida e tom avermelhado. 

Depois de uma mini-palestra do André Baptista sobre o Lugar e o Património e como os podemos transportar para os nossos cadernos, foi tempo de fazer uma rápida visita pelo local e despojarmo-nos de preconceitos para o podermos desenhar em conformidade. Somos atraídos por uma ruína à distância que nos convida a desenhar e mais ainda porque a nossa anfitriã efectivamente nos convida a ouvir a grandiosa história daquele casarão que testemunhou glória, riqueza mas também pobreza, sofrimento e ausência de direitos. Já lavada em lágrimas (genuínas e comoventes), Silvani tocou no assunto mais discutível dependendo da nossa visão política: "normalmente as pessoas vêm cá para conhecer a história do poderoso dono das terras, a história da família e do casarão, dos negócios e da política e esquecem-se do essencial - os escravos e os sem-terra que muito sofreram nas mãos dos senhores"  Aqui, e deixo a ressalva de compreender a 100% as lágrimas sofridas da Silvani, não posso deixar de opinar com algum lado de direita que houve mérito numa pessoa que largou tudo e investiu o que tinha e não tinha para construir tudo aquilo e dar trabalho a outros... No fundo é tudo uma máquina que precisa de engrenagem e uns não podem viver sem os outros e vice-versa. Se há trabalhadores a lutar por melhores condições é porque primeiro surgiram postos de trabalho e isso também é louvável. 

A vista sobranceira para os campos de café que outrora presenciaram os abusos descritos acima não deixa de ser notável e só nos restava pensar no Poderoso Barão a observar os seus escravos e a dizer para o seu herdeiro: "Filho, um dia, tudo isso será seu..." Este desenho foi feito na companhia do António Bártolo que para além de ser prodigioso no seu talento, é um mentor fantástico que nos dá sempre uma dica ou outra que fazem realmente a diferença e tudo isso com grande generosidade. Juntamente com o Simon e o Nelson, estes dias iniciais foram  no mínimo hilariantes e mega descontraídos! 

Diz a lenda que este casarão está assombrado e isso tem atrasado a sua recuperação (para além do assombramento mais comum, a falta de fundos) e na verdade, quando tirei fotos desta perspectiva para acabar a cor mais tarde, reparei que a foto estava com uma anomalia de luz num dos cantos. A Silvani veio a confirmar que todas as fotos que se tiram deste casarão são invadidas pelo tal fantasma! Sim... tirei uma foto a um fantasma, mas não o desenhei que aqui so entra quem eu quero... 

Pouco antes do final do Encontro, pude desenhar no meio da rua uma vez que os carros eram poucos, (passaram dois por mim em 15 minutos de linhas) enquanto conversava com alguns moradores que iam passando por nós com a natural curiosidade de ver o que estávamos a fazer. As conversas passavam sempre pelos problemas do país e da localidade e o espanto das pessoas quando eu "ripostava" que em Portugal também temos alguns desses mesmos problemas. O ar surpreendido e algum descanso era comum a todos, por perceberem que não estavam sozinhos no mundo e que muitas mais pessoas (infelizmente) têm problemas semelhantes. Tudo isto com o sotaque Brasileiro porque se eu falasse em PT-PT ninguém percebia absolutamente nada... 

11 junho, 2018

Torres Vedras - Araraquara I


Em Novembro passado tinha recebido um convite especial do Lauro Monteiro, o de integrar uma comitiva Torriense para rumar até Araraquara, no estado de São Paulo, Brasil, a fim de continuar com a parceria político-cultural que tem juntado as duas cidades nos últimos 4 anos, na altura em que o Projecto Arte ao Centro quebrou fronteiras e navegou o Atlântico. Ás 8:00 de 17 de Maio, eu carregava um misto de emoções ao rumar para o Aeroporto Humberto Delgado. Se por um lado estava entusiasmado pela ideia de conhecer outro continente, outro país, uma cultura diferente e ir para um lugar longe da pressão turistica; Por outro estava nervoso e já com saudades de casa e da família. Iriam ser 12 longos dias sem a esposa e a filha e isso corroía-me por dentro à medida que o A330 da Azul se afastava de terras Lusas. Desenhei o que pude com a pouca vontade que tinha: O André ao meu lado fazia o mesmo com um semblante carregado e cansado tal como eu estava; A Olga ao meu lado fazia o que eu gostaria de ter feito, dormir que nem uma pedra; A Cátia explorava o que o seu telefone lhe permitia em "Flight Mode"... 


Após um combinado de 18 horas de viagem, só deu tempo para comer uma sopa e ir directo para minha cama na minha morada dos próximos tempos: Araraquara. No dia seguinte, após montarmos a exposição dos artistas de Torres Vedras na Casa da Cultura, eu, o António Bartolo, o Simon Taylor (Curitiba) e o Nelson Polzim (Rio) fomos para a Praça da Matriz para fazer uns riscos. O que me espanta nesta cidade tal como em muitas cidades Brasileiras, são os cabos de electricidade/telecomunicações, com uma espessura de "fiamento" que por vezes ultrapassava 1 metro! As sombras que toda aquela parafernália projectava nos edifícios no final de tarde, era qualquer coisa de fantástica e isso era algo que eu teria de desenhar.  


A Igreja Matriz surge na praça, pelo meio de uma mini Selva Urbana e quase que fora de escala, pois a sua dimensão VS largura da Praça são do mais desproporcional que já vi. Claramente uma construção nova sobre uma pré existência que tal como se faz em Portugal, deita abaixo edifícios icónicos lindíssimos para dar origem a elementos de gosto enfim, duvidoso... Ainda assim, uma imponência destas tornada ex-libris da cidade, era algo que não poderia faltar no meu caderno. 


No dia seguinte acordámos bem cedo para o inicio do Encontro de Desenho de Rua (acho esta expressão nacional bem mais elegante) onde os participantes iriam fazer "croquis" do Parque do Pinheirinho, bem longe da confusão da cidade. Fomos baptizados (mesmo...) por uma tempestade tropical, com uma chuva vinda de umas nuvens como eu nunca tinha visto antes, pelo que tivemos de nos abrigar para ver o Mestre António Bartolo em acção na sua primeira demo/workshop. A água caia com uma força desmesurada que nem o abrigo chagava para nos proteger devidamente. A areia em torno do lago depressa virou terra cada vez mais encarniçada que volta e meia reflectia o céu branco e cinza. 



À primeira aberta, fugimos para a capela mas nem assim conseguimos escapar ao frio e algumas gotas de água que insistiam em cair sobre todos. Desenhei aqui o que era possível ver, o arvoredo e algum mobiliário urbano na distância. 


Depois de almoço e quando a chuva deu tréguas, fomos até a belíssima fazenda do Salto Grande onde orientei um rápido workshop/encontro de desenho demonstrando a técnica que costumo usar de poucas cores e altos contrastes. Aqui desenhei um dos casarões que outrora hospedava barões de café e hoje hospeda os milionários que estão dispostos a pagar milhares de Reais por dia. 

Continua...